quarta-feira, 30 de junho de 2010

Extrema Competitividade

Um problema relacionado, que acontece nos esportes atualmente, é a extrema competitividade. Não é exagero algum dizer que os competidores podem transformar-se, efetivamente, em monstros. Larry Holmes disse, quando disputava o campeonato dos pesos-pesados, que tinha de mudar ao entrar no ringue. “Tenho de deixar toda bondade fora dele”, explicou, “e trazer tudo que há de mal, como uma espécie de o Médico e o Monstro”. Os atletas adquirem uma compulsão obsessiva, no esforço de impedir que outros com igual talento os derrotem.
“É preciso ter dentro de si um fogo”, disse certa vez um ex-treinador de futebol americano, “e não existe nada que atice mais esse fogo do que o ódio”. Até mesmo o ex-presidente dos EUA, Ronald Reagan, disse certa vez, segundo alegado, a uma equipe universitária de futebol americano: “Você pode sentir um ódio limpo por seu adversário. É um ódio limpo, visto ser apenas simbólico, dentro da camiseta da equipe.” Mas, será realmente bom nutrir tal ódio pelo adversário?
Bob Cousy, ex-jogador e grande astro do basquete, da equipe dos “Boston Celtics”, expressou-se certa vez sobre sua tarefa de marcar Dick Barnett, um jogador que fazia muitos pontos para os “Los Angeles Lakers”. “Eu ficava sentado em meu quarto de manhã até à noite”, disse Cousy. “Eu só ficava pensando em Barnett, em parte repassando o modo de competir com ele e em parte cultivando ódio contra ele. Na hora em que entrava na quadra, eu estava tão inflamado que, se Barnett me dissesse ‘Olá’, eu provavelmente daria um pontapé nos dentes dele.”
O fato é que os jogadores com freqüência tentam deliberadamente contundir seus adversários para que abandonem a partida, e são recompensados por isso. Ira Berkow, cronista esportivo, disse que um jogador de futebol americano que consegue contundir um adversário, obrigando-o a abandonar a partida, é “abraçado e cumprimentado [pelos colegas de equipe] por uma tarefa bem executada. Se conseguiu aplicar bastantes desses golpes prejudiciais . . . ele é recompensado, no fim da temporada, com um aumento de salário, ou, no caso de jogadores que não são grandes craques, com uma extensão do contrato. Assim, os jogadores orgulhosamente consideram uma honra ser chamados por apelidos, tais como o Cruel Joe Greene, Jack (Assassino) Tatum”, e assim por diante. — The New York Times, 12 de dezembro de 1989.
Fred Heron, um tackle [jogador que procura agarrar o adversário] da equipe de “St. Louis” de futebol americano, relatou: “Os treinadores nos disseram que o zagueiro ou armador [do “Cleveland Browns”] tinha o pescoço machucado. Sugeriram que, se eu tivesse oportunidade, deveria tentar tirá-lo do jogo. Assim, durante a partida, eu atravessei a linha de jogadores, passei correndo o centro e o marcador, e lá estava ele. Tentei machucar-lhe gravemente o pescoço por agarrá-lo com o braço, e ele perdeu o controle da bola e a deixou cair. Meus colegas de equipe me elogiavam. Mas eu vi o zagueiro deitado no chão e se contorcendo obviamente de dor. Subitamente, pensei comigo mesmo: ‘Será que me transformei numa espécie de animal? Esta é uma simples partida, mas eu estou tentando aleijar alguém.’” Todavia, Heron observou: “A torcida me aplaudia entusiasticamente.”
Muitos lamentam as contusões resultantes da extrema competitividade como um dos principais problemas dos esportes atualmente. Infelizmente, milhões destas contusões envolvem menores de idade que bem cedo em sua vida são expostos a jogos altamente competitivos. Segundo a Comissão de Segurança de Produtos do Consumidor, dos EUA, a cada ano quatro milhões de menores são tratados em salas de emergência, devido a contusões esportivas, e calculadamente oito milhões de outros são tratados por médicos da família.
Muitas crianças e adolescentes sofrem atualmente de lesões pelo empenho excessivo, que eram raramente vistas há alguns anos. Quando as crianças jogavam apenas para divertir-se, elas voltavam para casa ao se machucarem e não jogavam de novo até que a ferida tinha cicatrizado ou a dor passado. Mas, nos esportes altamente competitivos e organizados, as crianças e os adolescentes continuam jogando, lesionando ainda mais as partes do corpo já feridas ou doloridas. Segundo Robin Roberts, um astro e ex-arremessador de beisebol, os adultos são a principal causa do problema. “Estão exercendo pressão demais — psicológica e física — sobre os meninos, muito antes de eles estarem preparados para isso.”

Problemas atuais com os esportes

AS PESSOAS costumavam argumentar que os esportes tinham seu valor porque aprimoravam o caráter. Afirmavam que os jogos promoviam o apreço pelo trabalho árduo, pelo espírito esportivo e pela alegria de participar. Mas para muitos, hoje em dia, tais argumentos soam “furados”, e até hipócritas.
A ênfase em ganhar constitui especialmente um problema. A revista Seventeen chama isto de “um lado obscuro dos esportes”. Por quê? Porque, para citar a revista, “vencer sobrepuja as preocupações com a honestidade, com os deveres escolares, com a saúde, com a felicidade, e com a maioria dos demais aspectos importantes da vida. Vencer passa a ser tudo”.
A experiência de Kathy Ormsby, estrela universitária das pistas de corrida dos EUA, foi usada para ilustrar as tristes conseqüências da ênfase excessiva nas consecuções atléticas. Em 4 de junho de 1986, algumas semanas depois de estabelecer um recorde nacional universitário, para mulheres, nos 10.000 metros rasos, Kathy desviou-se da pista, enquanto competia nos campeonatos da NCAA (sigla, em inglês, da Associação Nacional de Atletismo Universitário), correu para uma ponte próxima e jogou-se dali numa tentativa de suicídio. Ela sobreviveu, mas ficou paralítica da cintura para baixo.
Scott Pengelly, psicólogo que trata de atletas, comentou que Kathy não é a única. Depois da tentativa de suicídio de Kathy, Pengelly relatou: “Recebi telefonemas que diziam: ‘Acho que me sinto assim também.’” E outra atleta, Mary Wazeter, da Universidade de Georgetown, que tinha estabelecido um recorde nacional em sua faixa etária para a meia-maratona, também tentou suicidar-se por saltar de uma ponte, e ficou paralítica pelo resto da vida.
A pressão de vencer, de satisfazer as expectativas, pode ser tremenda, e as conseqüências do fracasso podem ser devastadoras. Donnie Moore, astro arremessador do time de beisebol “California Angels”, esteve a um passo de colocar seu time na disputa da “1986 World Series”. Mas o rebatedor da equipe de Boston conseguiu um home run (alcançou a base inicial), e essa seleção veio a ganhar o jogo e o campeonato da Liga Americana. Donnie, que de acordo com seus amigos ficara obsedado com seu fracasso, matou-se com um tiro.

O lugar ocupado pelos esportes

O GRANDIOSO Criador é descrito na Bíblia como “o Deus feliz”, e ele deseja que suas criaturas sejam felizes. (1 Timóteo 1:11) De modo que não deve ser surpreendente que ele tenha criado os humanos com a capacidade de sentir prazer em jogos. Assim, The New Encyclopædia Britannica (A Nova Enciclopédia Britânica) informa: “A história dos esportes e dos jogos faz parte da história do homem.”
Diz-se que o aparecimento da bola foi, de per si, o fator mais significativo na história dos jogos esportivos. “A observação de que os animais gostam de fazer piruetas com coisas que lhes servem de brinquedos”, diz a supracitada enciclopédia, “sugere que talvez nunca tenha havido uma época . . . em que não se corria atrás de, nem se lançava, um substituto da bola”.
É interessante que há muito também se usava algum instrumento para bater na bola. “Certamente os persas, os gregos e os índios americanos participavam de jogos em que se usavam bastões”, observa a Britannica. “Pelo visto o pólo, palavra de origem tibetana, já era bem conhecido, de alguma forma, pelos persas no tempo de Dario I (que reinou em 522-486 AC). O golfe, embora a Escócia afirme tê-lo inventado em sua forma moderna, tinha respeitáveis antecedentes nos tempos de Roma, e em muitos países europeus.”

O que os pais podem fazer

Os pais devem lembrar-se de que as crianças gostam de participar de atividades esportivas porque querem se divertir e liberar suas energias. Assim sendo, transformar os esportes juvenis em algo estressante e sujeitar as crianças a abusos verbais é desamoroso e contraproducente. A Bíblia diz: “Pais, não deis a vossos filhos motivo de revolta contra vós.” — Efésios 6:4, A Bíblia de Jerusalém.
O que pode ajudar os pais a serem equilibrados nesse assunto? Em primeiro lugar, eles devem lembrar-se do tempo em que eram crianças. Será que conseguiam alcançar um desempenho quase profissional? É razoável esperar isso dos filhos? Afinal, “os filhos são delicados”. (Gênesis 33:13) É importante também ter um conceito saudável sobre ganhar e perder. A Bíblia diz que a rivalidade que foge ao controle é “vaidade e um esforço para alcançar o vento”. — Eclesiastes 4:4.
Certo ex-jogador de uma das principais ligas de beisebol incentiva os pais a serem equilibrados: eles não devem ficar muito aborrecidos quando o desempenho da criança não é bom nem se empolgar demais quando ela ganha. Em vez de dar a entender que ganhar é a coisa mais importante, os pais devem enfatizar que o importante é se divertir e manter um bom condicionamento físico.
Alguns pais chegaram à conclusão de que esportes juvenis organizados tendem a incentivar um espírito de competição que não é nada saudável. Mas nem por isso proíbem seus filhos de participar em atividades esportivas com outras crianças. Muitos pais cristãos descobriram que seus filhos podem se divertir jogando bola com outros cristãos num quintal ou num parque. Isso lhes permite ter mais controle sobre as companhias dos filhos. Passeios em família também são uma boa oportunidade para jogar bola. É verdade que um bate-bola de fundo de quintal talvez não seja tão emocionante quanto fazer parte de um time vencedor. Mas nunca se esqueça de que, no máximo, “o treinamento corporal é proveitoso [apenas] para pouca coisa, mas a devoção piedosa é proveitosa para todas as coisas”. (1 Timóteo 4:8) Mantendo um conceito equilibrado sobre os esportes, você poderá proteger seus filhos de se tornarem vítimas da nova epidemia de violência.